JESUS E AS CRIANÇAS

16 de outubro de 2016
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“Tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou” – Marcos 10. 16

 A narrativa de Marcos traz um momento em que as crianças se aproximam de Jesus e as mesmas são impedidas de se aproximarem. Esse texto as vezes é utilizado apenas para dizer de forma simplista sobre que as crianças são o modelo de Reino.

Para compreendermos o significado desse texto, gostaria de trazer a luz qual era a realidade das crianças no mundo grego-romano em que Jesus Cristo viveu.

Na Roma Antiga era comum independente da classe social o abandono de crianças. Esse abandono tinha causas variadas: enjeitavam-se ou matavam afogadas as crianças que possuíam má formação. Criar filho era caro, então os pobres por não terem condições de criar seus filhos, expunham seus filhos na esperança que eles fossem acolhidos e criados.

Já os ricos abandonavam seus filhos por dúvidas sobre a fidelidade de suas esposas ou simplesmente por que já tinham definido a distribuição dos seus bens entre os herdeiros já existentes. Percebe-se assim que as crianças eram excluídas socialmente.

Era garantido ao pai pelo direito romano, autoridade como chefe de família para poder rejeitar, vender, abandonar ou matar suas crianças. O valor da criança era simplesmente por aquilo que ela pudesse vir a ser e não por aquilo que ela era. As meninas abandonadas eram entregues a prostituição e os meninos treinados para serem gladiadores. Elas também eram tomadas para escravidão/servidão.

O judaísmo proibia o abandono e o assassinato de crianças recém-nascidas. Sabemos que Deus sempre protegeu os pequenos. Combateu desde o início o sacrifício de crianças a Moloque (Levíticos 18.21; 20.2; 20.4). Para o judaísmo as crianças são consideradas benção do Senhor (Salmos 127.3).

Mesmo sendo benção de Deus possuíam uma educação muito severa, a base desse ensinamento era a Torá (Pentateuco, que corresponde aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento bíblico). A autoridade dos pais só estava abaixo da autoridade de Deus. Os filhos eram corrigidos com muito rigor. Não se permitia de forma nenhuma a desobediência aos pais. Todo caso de rebeldia deveria ser combatido. Os filhos têm uma obrigação para com seus pais: honrá-los, reverenciá-los e obedecê-los.

A educação de meninos e meninas era diferente. Os meninos eram educados de forma privilegiada. Aos cinco anos, eles deviam começar os estudos sagrados. Aos dez anos, tinham de estudar as tradições, ou seja, incluindo a Torá escrita, a Torá oral (Talmud) e os ensinamentos rabínicos. Aos treze, tinham a obrigação de conhecer toda a lei do Senhor e de colocá-la em prática. Mas até mesmo os meninos eram discriminados em relação aos adultos, pois só poderiam entrar no “átrio dos homens” no templo de Jerusalém após os treze anos. As meninas tinham educação mais restrita voltada para a casa.

Diante do exposto, Jesus mais uma vez vem na contramão da história quando acolhe as crianças, e as inclui dentro de sua missão. Jesus confere as crianças valor e as ama por aquilo que elas são, apenas crianças.

Podemos entender porque os discípulos achavam que as crianças estavam atrapalhando o Mestre. Jesus tinha muito trabalho ao ensinar e cuidar dos discriminados. Os discípulos acharam que era uma interrupção imperdoável no programa do Mestre, permitir que crianças fossem levadas a Ele para que Ele tocasse nelas (v. 13).

Os discípulos censuraram as pessoas que trouxeram as crianças a Jesus para que Ele as abençoasse. A atitude deles resultou em uma censura do próprio Cristo. Pois ele não somente recebeu as crianças, mas foi além do que foi pedido, tomando-as nos braços as abençoou (v. 16). Ao dizer, pois, o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas (v. 14), Jesus, provavelmente, tinha em mente que o Reino de Deus pertence a pessoas que, embora não sejam literalmente crianças, estejam impregnadas de características de crianças como a confiança e a receptividade.

As crianças permitem que as pessoas lhes dêem coisas sem qualquer outro pensamento de merecimento da sua parte; e é somente ao adotarem esse tipo de atitude que as pessoas podem se apropriar das bênçãos do Reino de Deus.

Esta é a “perfeição” espiritual da “criança”: ter necessidade de Deus em tudo. Entender isso e receber o “Abba” que significa ter uma íntima relação de filho para com seu pai, e isto sim é o que deve importar, nossa relação com o Pai Eterno de profunda dependência.

Que possamos aprender com a pureza de coração dos pequenos e a sua simplicidade do seu agir, nunca esperando nada em troca, os verdadeiros valores do Reino de Deus.

Que então, voltemos a ser crianças!!!